Conversa com Woody Allen

Saí do meu quarto de hotel em New York na tentativa de tomar um café da manhã. Não queria novamente olhar para a cara daqueles mesmos hospedes que me encaravam há 7 dias. Algum bar, padaria ou restaurante que oferecesse tal serviço era o que eu precisava. Queria mudar de ar, ver pessoas diferentes, afinal, estava fora do meu país. Entrei num pequeno bar. Ainda meio escuro, sombrio. Achei que ali conseguiria meu pingado com um espetinho de frango. Adoro isso no café da manhã, mas ali não era possível. No máximo um pão com bacon, algo assim. Coisa de americano.

Esperava sentando frente ao balcão meu café preto. Quando me dei conta, Woody Allen estava ao meu lado, tomando um cafézinho preto também. Tentei me conter, mas não consegui. Queria fazer algumas perguntas, saber mais do seu trabalho, da sua vida. Fiz 3, que foram respondidas cordialmente. São elas:
Eu: “Você é um cara neurótico por trabalho? Tú parece ser tão sisudo, sério. Eu sempre achei vendo seus filmes que você era divertido. Afinal, qual é a sua?
Ele: A verdade a meu respeito está provavelmente em um meio termo disso. Escritores têm uma tendência a… enfatizar certas características para que pareçam melhores. Estou sendo pago para fazer o que gosto. O que significa basicamente escrever e, às vezes, atuar. Tenho mesmo alguns problemas com o meu tempo livre, quando não estou trabalhando. Não sou o tipo de cara que se empolga com viagens, casas no campo, barcos, férias e outras coisas de que a maioria das pessoas gostam.

Eu: Hum, entendi! Mas assim, você tem inveja de quem trabalha, anda de barco, bebe sua cerveja e não ta nem aí pra porra nenhuma?
Ele: Não. Ocasionalmente invejo pessoas que são naturalmente religiosas, sem terem sofrido lavagem cerebral ou atraídas pela barulheira das instituições organizadas. Eu não andaria de barco. Odeio barcos, me sinto enjoado. Além de tudo, quando andei, fiquei todo queimado de sol.

Eu: Prometo que é a última, senão você vai ficar puto comigo e seu café vai esfriar. Você já fez muitos filmes. Acha que o trabalho é a coisa mais importante da sua vida?
Ele: Ah, claro que não. Já cheguei a encerrar as filmagens mais cedo pra poder chegar em casa a tempo de ver um jogo dos Knicks (tiem de basquete da NBA) na TV. Se estou com uma garota e tenho que filmar no outro dia as 6hs da manhã, nem ligo de passar a noite em claro. O mais importante é aquele momento ali. O trabalho que se foda.”
E depois dessa eu saí, esquecendo até de tomar meu café preto e me despedir do cara. Apenas pensando que aquele era um cara maneiro.
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