O lixo e suas versões

(Foto tirada em frente à uma empresa, em Americana/SP. Clique para ampliar)

Uma simples placa pode dividir o mundo. Pode incriminar alguns, inocentar outros. É uma questão de ponto de vista. Depende de que lado você está. Falando nisso, de que lado você está nessa história?

 Primeira versão – O “coitado”

“São vagabundos! Eles vêm aqui, ficam mexendo no lixo, fazendo bagunça e deixam tudo jogado para os meus funcionários limparem. Esses dias paguei 2 horas a mais de trabalho para os faxineiros da empresa limpar o que eles sujaram. Rasgaram sacolinha e viraram os latões. Eles ainda trazem aqueles cachorros sarnentos, que ajudam a revirar tudo. Pra que mexer no lixo? Vai fuçar na vida dos outros pra quê? Não tem nada aqui pra comer. É lixo. Bando de vagabundo que não tem o que fazer. Por que não vão arrumar um trabalho e ganhar seu próprio dinheiro? Bando de vagabundo! Se continuarem assim vou acabar contratando um pessoal pra acabar com isso de uma vez por todas. Depois vem a imprensa e o caramba dizer que o culpado sou eu. Eu tô avisando, vocês estão vendo.”

Ass.: Empresário “preocupado” com o futuro do Brasil.

 Segunda versão – O “culpado”

“Quando você pensar num cara sem sorte, pense em mim. Não tenho casa, não tenho uma família, não tenho porra nenhuma. Tenho fome, muita fome. E um cachorro que não me larga por nada. É meu único amigo. Fiz merda na vida, com certeza, mas acho que está demorando muito pra terminar essa minha “pena”. Eu mexo sim no lixo, cato papelão na rua com meu carrinho e faço um monte de coisa que você nem imagina. É o que eu posso fazer pra sobreviver. Mexi esses dias no lixo de uma empresa de alimentos. Achei que ia ter alguma coisa pra comer, sei lá. Tava com fome pra cacete. Ai veio um senhor engravatado, junto com o porteiro dele, e os dois ficaram me xingando. Falando que eu era vagabundo, marginal, que usava droga. Tudo isso que você já sabe. Eu só queria comer. Custava ele me dar um prato de comida? Mas ele preferiu me xingar. E eu não tô nem aí. Se eu não fuçar no lixo, eu não tenho o que comer. Morrer de fome é que eu não quero, então, vai continuar tudo na mesma. Foda-se esses engravatados. Se eles avançarem o “Tuquinho” pula no pescoço dele. Né não Tuquinho?”

Ass.: O catador de papelão, o “marginal” da história.

 E aí?

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3 pensamentos sobre “O lixo e suas versões

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