As minhas contradições carnavalescas

Eu nunca escondi de ninguém que não gosto de carnaval. Mas nesse domingo carnavalesco, em que eu fiquei grande parte do dia lendo, ouvindo coisas e pensando na vida, acabei de descobrir/perceber/afirmar que eu realmente não gosto desses dias, mas que tenho uma relação muito “íntima” – e isso não é no sentido da sacanagem – com o carnaval e as escolas de samba.

Por mais que eu não queira, o carnaval sempre vai ser parte da minha vida, e aqui não tem nada a ver com o fato de eu ser brasileiro ou morar num morro carioca. Ainda mais quando eu tiver que contar histórias referentes ao meu período acadêmico. Foi lá, na PUC-Campinas, que eu e mais 4 caras – que imagino também não gostarem de carnaval – escolhemos como “cliente” para nosso Trabalho de Conclusão de Curso – vulgo TCC – a Estação Primeira de Mangueira e seus projetos sociais. Isso mesmo! 5 caras que não gostam de carnaval escolheram – por influência sabe-se lá de quem – uma escola de samba para trabalhar. E deu samba.

No começo todo mundo torceu o nariz. Até a gente. Ninguém nunca tinha feito algo do tipo, já que nessa parte do processo na faculdade, é muito mais cômodo e natural que os grupos escolham empresas “normais” para trabalhar. Seria muito mais tranquilo pra gente escolher a Pirelli, por exemplo, do que uma escola de samba. Mas a gente não estava muito afim de fazer o óbvio. E foi bom que pensássemos assim naquele momento.

Foi um período difícil. A empolgação do início sempre passa mais rápido do que a gente gostaria e precisávamos tocar aquele projeto adiante por mais 4, 5 meses. Do mesmo modo, foi um período legal. Muitas descobertas, muitas brigas e no fim o que sobrou foi um vasto conhecimento de um mundo que a gente não está acostumado a viver. As escolas de samba, seus projetos sociais e as pessoas que fazem parte daquilo o ano todo – e não o “artista” que desfila ali só pra aparecer – são dignos de aplausos, já que é um trabalho muitas vezes feito com o coração, sem recursos muito pomposos e com pouco reconhecimento.

Claro que existe uma parte muito podre nisso tudo. A grande dificuldade – e que até hoje não conseguimos descobrir – era saber de onde vinha toda aquela grana pros desfiles. Ninguém fala; ninguém sabe. Mas o trabalho e o envolvimento de cada comunidade com sua escola é algo à ser admirado. Na verdade, são essas as pessoas que fazem o grande carnaval, embora muitas vezes não subam nos carros alegóricos.

No fim das contas, valeu muito a pena. Não fomos os melhores – e isso estava claro desde o início -, mas tivemos que nos desdobrar, buscar novidades, entrar de cabeça num mundo totalmente diferente do que a publicidade costuma trabalhar. O único erro, na minha opinião, foi ter colocado o Adriano Imperador – sim, esse mesmo do Corinthians – como nosso garoto propaganda pra muitas das atividades culturais e esportivas. Ele estava num bom momento em 2009, mas hoje não é mais exemplo pra ninguém. Mas acontece, nas melhores e nas piores comunidades.

Foi uma experiência muito boa. Pena não podermos comparecer aos ensaios que fomos convidados naquele tempo. Quem sabe um dia…

Ps: Este texto é dedicado à todos que fizeram parte do grupo e nos ajudaram de verdade. Os professores Wágner Bastos e Renata Manjaterra, e ao Guilherme, ao Mário, ao Galego e ao Téd que eram parte do grupo. 

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10 pensamentos sobre “As minhas contradições carnavalescas

  1. Aê Lemão, valeu muito ter feito este trampo. Todas as vezes que nos envolvemos, conhecemos mundos diferentes dos nossos crescemos, nos transformamos.
    Abrass

  2. Sensacional seu texto Lemão! Acredito que todos nós pensamos exatamente isso… e talvez o projeto tenho ficado bom de verdade por nós não sermos fãs dessa festa, e termos buscado informações que realmente mudasse a vida deles…foi um período que a gente nunca esquecerá… e toda vez que digo que meu cliente do TCC foi a Mangueira, sempre rola um nariz torto, até hoje! haha
    Só tenho a agradecer a todos os envolvidos por essa experiencia. Muito Obrigado!

  3. É isso Lemão, meu amigo. Foi difícil pra mim também que embora Mangueirense de coração (talvez por influências Cartolianas, Buarquianas ou Jobinianas) também não curto muito a folia, prefiro prestigiar à distância, mas admiro deveras o trabalho das comunidades ligadas ao carnaval. Meu feriado foi curtindo um pouco de rock-rural….”ziriguidum tcham…”

    Obrigado pela homenagem e parabéns pelo texto.

  4. Coincidentemente, em 2009, fui num ensaio na quadra da Mangueira.

    Aquilo ali é um outro planeta. Surreal. Não é preciso gostar de samba pra gostar daquele lugar.

    (sim, a cerveja em excesso me ajudou a chegar nessa conclusão, naquela noite)

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