Feito de mentira

Dias atrás, numa dessas conversas de fila de banco, um estranho me perguntou se eu mentia. Não sei se foi alguma coisa que falei que o deixou intrigado, ou se ele simplesmente queria me testar. Não entendi nada pra falar a verdade, e minha primeira reação no momento foi não ter reação alguma. Fiquei em silêncio, e se o estranho for do tipo que acredita no ditado que diz que “quem cala consente”, ele certamente me julgou como um grande mentiroso.

Depois de um tempo, em que me recuperei do baque da pergunta indiscreta, disse que “Não!”. Que não mentia e costumava me comportar de maneira honesta, sempre buscando a verdade acima de qualquer outra coisa. Não sei se ele acreditou – acredito que não -, mas a conversa continuou depois disso, como se aquela indagação nem tivesse sido feita.

Paguei minhas contas e fui embora. Mas aquela dúvida veio comigo, ecoando na minha cabeça. Ela poderia ter ficado na porta giratória, retida como os metais sempre ficam, mas não se prestou a isso. Me acompanhou por todo o caminho de volta, que eu fazia questão de percorrer numa tranquila caminhada até a minha casa, que ficava mais ou menos próxima da agência bancária.

Eu menti pra ele. Falei que não mentia, e isso por si só já é uma grande mentira. Ele queria me testar. Mas por quê? Quem mandaria um estranho me testar numa fila de banco?

Desculpa se você se considera uma pessoa de boa índole, correta e honesta, mas você, assim como eu, também mente. Todo mundo mente, nem que seja uma mentirinha bem pequena de vez em quando, só pra fugir do atendente de telemarketing chato que insiste em roubar nosso tempo. A mentira faz parte de nós. Somos feitos dela – uns mais que outros -, e não podemos negar.

A mentira é uma ilusão, uma espécie de universo paralelo que faz a gente viver o que não é real. Os sonhos, talvez só sejam tão especiais e prazerosos porque são feitos de mentiras. Lutamos para não acordar no meio de um deles, porque nos sentimos bem com aquilo. Às vezes temos pesadelos, e a primeira coisa que fazemos ao acordar é soltar um “Ainda bem que era mentira!”. Não deixa de ser um aprendizado.

O que me intriga, ainda, é porque o estranho me abordou daquela maneira. Eu não sei nem o seu nome e teria uma dificuldade tremenda em descrevê-lo no “retrato falado” da polícia, caso seja um criminoso. Talvez ele seja um criminoso, já que roubou de mim um segredo que eu guardava à sete chaves, como prova da minha inocência perante o mundo.

A mentira me derrubou e me fez perceber que muitas vezes ela é mais forte do que a verdade. Este texto pode ser uma prova concreta de tudo o que falei.

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