Crônicas da crise – Que mundo é esse?

Não sei se cheguei em boa hora. Minha mãe vai falar que sim, claro, mas Portugal pode ter torcido o nariz quando cheguei. Eles acham que sou mais um pra atrapalhar. Ô povinho…

Não falo como os adultos aqui de casa, mas escuto muito bem tudo o que dizem. E eles falam muito de uma coisa chamada crise. Sei lá, acho que sou pequeno demais pra entender de tudo, mas essa tal de crise não deve ser coisa boa não. Eles falam de um jeito meio tenso, com um olhar aflito. Engraçado que mamãe e papai falam tanto disso mas quando eu olho bem no fundo dos olhos deles, logo botam um sorrisão no rosto.

Se essa tal de crise for ruim mesmo, como dizem por aqui, vou começar a usar sempre essa tática. Eu sei que mamãe não resiste a esse meu olhar lusitano. E o sorriso então?

Meu tio, aquele puto, foi embora pro Brasil novamente. Agora que comecei a ver a vida com outros olhos, que posso dar uma voltinha pela praia olhando melhor a paisagem de Cascais, aquele paneleiro pega o avião e vai embora. Já tinha sido difícil quando vovó se foi. Agora então…

O pior de tudo é que me deixaram aqui, com papai e mamãe que me dão tudo o que quero, mas com a tal da crise, que sempre vira assunto na hora da papinha. O que será que eu posso fazer? O que mais posso oferecer ao papai além desse sorriso bonito?

Se ao menos alguém me tirasse daqui.

Foto de Rafael Graciano*

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