O poder do vandalismo

O vandalismo tem sido a principal notícia dos meios de comunicação nos últimos dias. As manifestações brasileiras, que podem ser encaradas também como uma revolta, tem mostrado que a violência é parte constante do nosso cotidiano, e seria quase impossível ter nesse momento tanta gente na rua e revoltada com a atual situação do país e não ter uma só gota de sangue.

É ingenuidade achar que justamente num dos momentos mais importantes da nossa história teríamos passeatas com milhares de pessoas cheias de paz no coração, sem vontade de quebrar nada. Se na hora da raiva a gente quebra até as nossas coisas – quem nunca jogou um objeto no chão num momento de explosão e raiva? -, o que diríamos de marcos que representam o poder e toda a segregação que estamos expostos?

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Em tempo: não sou uma pessoa violenta e não sou a favor do quebra-quebra que tem acontecido. Mas não se pode colocar a culpa de tudo nas costas dos “vândalos”. Daqueles que quebram por quebrar em momentos de raiva, e não de bandidos que aproveitam o momento para saquearem lojas. Uma coisa é totalmente diferente da outra, e só não vê essa diferença quem não quer. Quebrar a vidraça da prefeitura da sua cidade é muito diferente de aproveitar a aglomeração para roubar a loja de roupas. Ambos podem ser considerados atos criminosos, concordo, mas são situações distintas.

Nessa onda toda de quebra-quebra e de roubos, podemos fazer uma reflexão de como vivemos ultimamente e tentar entender o porquê disso acontecer.

Vivemos numa sociedade que segrega e nos separa a todo momento. E na grande maioria das vezes essa separação se dá pelo nosso lado “consumidor”, ou seja, pela nossa capacidade ou não de comprar de bens de consumo. E essa separação faz com que muita gente fique de fora desse jogo, que querem de qualquer maneira participar, mas não podem. E nesses casos, a grande maioria que fica de fora se sente excluída, ficando ressentida e raivosa.

McDonalds, Hyundai, bancos de toda espécie entre outras grandes empresas representam essa exclusão do “mundo capitalista”. Aparentemente qualquer um pode comer um Big Mac ou ter um carro do ano, mas para que isso aconteça é preciso que se tenha dinheiro. E dinheiro é o que falta a essa massa de excluídos, sendo esse motivo dessas pessoas ficarem de fora desse perigoso jogo.

Dessa forma, o pensamento revoltoso na hora da baderna é o “se isso não pode ser meu, não vai ser de ninguém”. E é preciso que um único elemento mande uma pedra numa vidraça para que tudo comece a desmoronar, inclusive esse modelo de sociedade. E a propaganda tem um papel fundamental nisso tudo. Pra quem ainda não sabe, a publicidade de produtos trabalha muito pouco com benefícios técnicos dos produtos. Ou seja, para anunciar um carro poucas vezes se diz o que ele pode te oferecer em termos práticos, como potência do motor ou material utilizado no acabamento do painel. A publicidade cria outros atributos para esse veículo, como segurança, conforto e a sensação de ser diferente por ter um determinado veículo. É aquela coisa de deixar o vizinho com inveja que acaba satisfazendo muita gente que poderia simplesmente se contentar com um bom veículo para cumprir suas tarefas de locomoção.

É evidente que uma revolta como essa tem muitos motivos. Como dizem, é muito mais do que os 20 centavos que deram inicio a isso tudo. Mas vale a reflexão e tentar entender a maneira como estamos vivendo. Como estamos criando e ensinando as crianças, que valores estão sendo passados na escola e dentro de casa do que é importante ou não. Não existe uma verdade consolidada, nem um único culpado. Mas a mudança de algo tão complexo talvez comece assim mesmo, aos poucos e dentro de cada um. Mudar o mundo não será apenas mudar o mundo de lugar.

A única coisa certa nisso tudo é que a violência – tanto da polícia no início quanto agora de muitos manifestantes – tem feito com que essa revolta não saia do noticiário. Talvez se fôssemos apenas “revoltados comportadinhos marchando pela cidade” tudo isso já teria ido por terra e as coisas tivessem voltado ao normal. Ou não? 

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Um pensamento sobre “O poder do vandalismo

  1. impossível conter a raiva/violência depois de 500 anos sendo estuprado com um caralho de 42cm, todos os dias. o povo cansou de ser otário, agora não dá pra evitar o motim. Por nossos pais e filhos, não vamos tolerar mais (com violência ou sem)

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