As palavras que José preferiu guardar

Sempre me incomodou o fato de José ficar calado. Ele parecia não ter opinião pra nada. Se tinha, fazia questão de guardá-las pra si, sabe-se lá por qual motivo. E não era só eu que me incomodava com aquele silêncio intrigante de José, afinal, hoje todos sabem de tudo e qualquer um emite opinião sobre os mais variados assuntos. É a nova forma de ser aceito na sociedade, e sendo assim José não era representativo no seu círculo de amigos. Não falava, não tentava ensinar o que aprendeu quando criança, e pior, não julgava ninguém.

Imagem

O tempo passava, mas José não mudava seu jeito e isso irritava ainda mais as outras pessoas. Elas queriam uma reação, qualquer uma. Não importava se fosse de fúria, raiva ou ironia. Era “preciso” reagir o mais rápido possível. Mas como era de se esperar, José continuou na dele, sem palpitar muito.

Não falava mal dos outros, não julgava a vizinha que andava de mini-saia. Olhava pra ela, claro, mas não dizia que era uma biscate, vagabunda. No máximo comentava algo sobre seu time de futebol com um ou outro amigo. Não chamava o Muricy de burro, mas comentava que preferia ver no comando do ataque o raçudo Aloísio do que o milionário e sem vontade Luis Fabiano. Isso foi uma das poucas opiniões que consegui tirar de José em mais de 30 anos.

Essas coisas me fez pensar. Refleti sobre aquele homem já vivido, sobre sua vida e tentei imaginar o que pudesse ter acontecido. José era quase uma aberração na nossa sociedade, mas não se mostrava inquieto por isso. Pelo contrário, parecia estar sempre muito tranqüilo com seus problemas e soluções. Como não se metia na vida dos outros, era óbvio que ninguém o consultasse para emitir suas opiniões. Para os problemáticos, José era fraco demais, frouxo, não poderia resolver nada. No fundo, José achava aquilo um alívio, já que não queria mesmo se importar com nada. Não queria ser a solução pra essa gente dependente de julgamentos.

Talvez seja bom ser José. Eu mesmo queria ser como ele, mas não sei se isso vem de berço ou se a gente aprende com a vida. Ele não vai me contar se eu perguntar, claro. Ou vai, não sei. Estou tomando decisões por José sem antes consultá-lo, o que muita gente em sua volta acaba fazendo diariamente, mesmo sem sua autorização.

Decidi: quero ser como José. A vida do vizinho até me interessa, queria saber se ele é “normal” como eu, mas talvez isso seja desnecessário. Já tenho tantos problemas, tantas frustrações e tantas barreiras que preciso ultrapassar diariamente que não posso perder tempo com histórias que José nunca contou. Vou tentar ser assim, mas não garanto nada. O silêncio de José, mesmo sem querer, me fez tentar mudar. Que seja um bom aprendizado, pra mim e para os que me rodeiam.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s